21 julho 2018

Resenha #147 - Pequenos incêndios por toda parte

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Um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos.Em Shaker Heights tudo é planejado: da localização das escolas à cor usada na pintura das casas. E ninguém se identifica mais com esse espírito organizado do que Elena Richardson.Mia Warren, uma artista solteira e enigmática, chega nessa bolha idílica com a filha adolescente e aluga uma casa que pertence aos Richardson. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.Eleito nos Estados Unidos um dos melhores livros de 2017 por veículos como Entertainment Weekly, The Guardian e The Washington Post, Pequenos Incêndios Por Toda Parte explora o peso dos segredos, a natureza da arte e o perigo de acreditar que simplesmente seguir as regras vai evitar todos os desastres.

A família Richardson e a pequena família Warren são opostos. A família Richardson, tendo como matriarca Elena, é uma família que preza pela ordem, por isso Shaker Heights é tão perfeita pra família. Um bairro (eu não sei se é um bairro ou uma pequena cidade. Não consegui perceber isso ao longo da leitura, na verdade em cada momento eu achava uma coisa) onde as casas são padronizadas, podendo serem pintadas por fora com somente duas palhetas de cores possíveis, escolas estrategicamente localizadas para que ninguém tenha que correr riscos a caminho. Na família Richardson, cada pessoa tem um papel a cumprir e o faz, ao menos é o que pensa Elena. Seus dois filhos mais velhos, Lexie e Trip, são o exemplo de adolescentes americanos que vemos nos filmes. Lexie é super linda, rodeada de amigas, um namorado incrível por anos, praticamente mandando na escola. Trip é um atleta lindo, que arrasa os corações de todas as garotas da escola, meio superficial, ao menos é o que el deixa transparecer. Os dois mais novos, Moody e Izzy, são mais quetos, fechados e menos populares (bem menos) que seus irmãos mais velhos.
"Naquele instante, Moody entendeu o que já tinha acontecido naquela manhã: sua vida havia sido dividida entre antes e depois, e ele sempre compararia as duas fases." Pág 34
A pequena família Warren engloba Mia e Pearl, mãe e filha. Mia é uma artista, uma mãe solteira que vive para sua arte, mas infelizmente não vive dela. As duas sempre viajam. Vão pra alguma cidade, ficam um tempo por lá enquanto Mia trabalha em um projeto e arruma algum emprego temporário de meio período pra arcar com os gastos, que são basicamente o aluguel barato de um apartamento pequeno e alimentação. Em seu carro, as duas carregam somente o mínimo. Uma mochila com roupas e artigos de higiene pra cada uma, dois pratos, dois copos, dois potes, uma panela, uma frigideira, alguns talheres. Móveis e roupas são comprados em brechós. Alguns móveis também são encontrados na rua e reformados pelas mãos habilidosas das meninas. Pearl tem a mesma idade de Moody, que logo se torna seu amigo inseparável. Mia e Pearl sempre foram muito unidas, sendo as únicas família uma da outra.
"Desde sempre, Pearl entendia a hierarquia: o trabalho verdadeiro da mãe era sua arte, e o que quer que pagasse as contas só existia para tornar a arte possível." Pág. 38
Bom, pra que entendam melhor a problemática que vai rolar na história, vamos lá. Mia trabalha meio período em um restaurante Chinês onde conhece Bebe. Bebe é uma das pessoas que vai estar na problemática que vai mover a história. Bebe é imigrante, seu inglês é bem precário e nunca consegue um salário que pague mais que um salário mínimo. Bebe engravida e é abandonada pelo namorado quando isso acontece. Ficando sem ter como sustentar a si e a menina, ela a deixa em um Corpo de Bombeiros, clamando que ajudassem a menina. Os McCullough são grandes amigos dos Richardsons. Tentam engravidar a dez anos, mas nunca conseguem então entram pra fila de adoção. Quando a assistente social liga lhes dizendo que uma menininha foi encontrada e perguntando se eles querem cuidar da bebê, tudo parece um sonho e perfeito de mais. Depois de ter dado um jeito em sua vida, Bebe quer a guarda de sua filha de volta, mas os McCullough não vão abrir mão facilmente do seu pequeno milagre. A Sra. Richardson logo começa a investigar o passado de Mia pra descobrir porque ela está tão empenhada em destruir a felicidade de sua grande amiga.

Finalmente, vamos lá a minha opinião sobre a obra.

O começo do livro foi meio confuso pra mim. Ele começa do final. Começa com a casa dos Richardsons pegando fogo, tendo pequeno incêndios em vários cômodos da casa. Como Izzy está sumida e sempre foi a mais rebelde, a chance dela ter sido a responsável por isso é grande. Tirando esse começo que começa do fim, o começo da história é meio complexo. Somos apresentados a vários personagens, muita coisa se entrelaçando e acontecendo e ai ficamos meio perdidos. O narrador da história também é diferente. Ele é imparcial, somente vai nos apresentando os fatos. Ele é onisciente, é uma terceira pessoa mas também sabe o que os personagens estão sentindo, o que nos deixa mais envolvidos.
"A questão com retratos é que você tem que mostrar as pessoas como elas querem ser vistas. E prefiro mostrar as pessoas como eu as vejo." Pág. 89
Eu várias resenhas que li sobre o livro, era dito que o ritmo dele é lento e não tão envolvente, mas eu discordo. Pra mim, foi bem envolvente e eu ficava roendo as unhas pensando no que iria acontecer a seguir. Eu gosto muito de histórias que acompanhem o cotidiano de pessoas simples. Acho que é o tipo de história que nos mostra toda a beleza do cotidiano. Ele não tem muita ação, muitas vezes só nos apresentando ocorridos simples do dia a dia, mas eu achei muito bacana acompanhar essa rotina e consegui ler o livro relativamente rápido. Conforme a história vai sendo narrada, vamos descobrindo coisas sobre o passado dos personagens e, ás vezes, vamos descobrindo as consequências futuras de tudo isso e achei bem legal essa parte de saber o que vai rolar futuramente.
"Algumas fotos pertencem à pessoa que as tirou, outras são da pessoa que aparece." Pág. 386
Uma das coisas que mais gostei em PIPTP é que ele tem como protagonistas personagens que são mães e a maternidade é importante pra caramba na história. Não é sobre os adolescentes e as mães são coadjuvantes, é quase que o oposto. O livro trás várias discussões sobre o que é maternidade, as dificuldades de uma mãe, o que torna uma mulher mãe de verdade, escolhas, jeito certo ou errado de criar os filhos (spoiler alert! Não tem jeito certo) e coisas assim. Eu achei isso o máximo. Sério mesmo. Se souberem de outro livro onde a protagonista é mãe e a maternidade é algo importante pra história, me avisem.
"Lá estavam os braços esguios de sua mãe, que pareciam frágeis e finos, como se pudessem se quebrar sob um peso muito grande, mas que eram capazes de carregar mais peso do que qualquer mulher que Pearl já tinha visto." Pág. 124
Outras discussões importantes tratadas no livro: Sexo na adolescência, aborto, adoção, abandono, responsabilidade escolar quanto a educação sexual, escolhas... Enfim, é um livro muito mais complexo do que parece. Trás também discussões sobre preconceito de raça. De forma bem sutil, devo dizer, mas se prestar atenção, o assunto está bem ali. Essa é uma das coisas que gostei na escrita da autora. Ela não é muito direta pra falar desses assuntos, deixa subentendido, sabe? Achei muito delicado esse modo de escrever.
"Todo mundo liga pra cor, Lexie. A única diferença é que tem gente que finge não ligar." Pág. 60
Uma coisa que gostei muito no livro é a cumplicidade entre Mia e Pearl. Eu fiquei bem chateada por Pearl não ter compartilhado algo importante com Mia, mas achei o máximo como ela confia na mãe pros assuntos mais delicados e como sabe que não terá que explicar algo pra ela, porque ela vai saber o que houve e vai saber a coisa certa a fazer e a dizer, sabe? Cara, como eu quero uma relação assim com o Miguel. Do outro lado, Mia também descobre como se abrir com sua filha e conta pra ela coisas que sempre manteve somente dentro de si. A cena onde elas compartilham esse passado é curta, mas é emocionante.
"Não havia fotos dos dois fazendo aquilo, mas eles tinham a impressão de ter passado a infância inteira brincando nas pilhas de lixo fundido perto do parque, e, olhando a fotografia feito pela irmã, Warren teve a sensação de que Mia havia tirado uma foto dos fantasmas dos seus antigos "eus", prestes a se desfazer no éter." Pág. 243
No final da história, eu consegui entender que o título tem sim muito a ver com a cena inicial onde a casa pega fogo com vários pequenos incêndios por toda parte, mas é muito mais que isso. São incêndios de dentro da gente, dentro de uma família ou uma comunidade. São coisas que achamos estarem resolvidas e, por isso, não falamos sobre, mas quando não falamos sobre, tornamos tabu e ninguém quer falar sobre assuntos tabu. Enfim, tudo intenso de mais pra eu conseguir explicar com simples palavras. Apaixonante.
"Era algo que Lexie tinha escutado a mãe falar várias vezes ao telefone para a Sra. McCullough, sempre que o caso era mencionado, de forma que ficara gravado em sua mente como fato." Pág. 309
A edição está bem bonita. Eu gosto dessa capa, gosto das cores usadas e gosto título ser grande (adoro títulos grandes). Gostei da revisão, gosto de ter várias referências musicais. Falando em música, só de pensar nesse livro, fica passando na minha cabeça a música Try da Pink. Acho que tem tudo a ver com a história. As páginas são amareladas, o que sempre facilita a minha vida de usuária de óculos de grau, as fontes também são de um tamanho bom, espaçamento bom. Os títulos tem somente o nome do número do capítulo, sem muitos detalhes, mas bem sinalizado avisando que é o início de um novo capítulo. De modo geral, a edição física é bem bonita.
"[...]ser jornalista. Você descobre tudo. Pode contar as histórias das pessoas, desvendar a verdade e escrever sobre isso. Usar palavras para mudar o mundo. Eu adoraria fazer isso." Pág. 186

Ficha Técnica...

Título: Pequenos incêndios por toda parte
Título original: Little Fires Everywhere
Autora Celeste Ng
Editora Inctrínseca
416 páginas
Ano 2018
Nota: 5
Nota no Skoob: 4.2
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Quote escolhida para o projeto Poteando Quotes









Detalhe da edição por dentro

Marquei o livro todo

Adoro que na biografia da autora fala que ela já morou em Shaker Heights


Concluindo: Uma leitura envolvente e diferente de tudo o que já li antes. O cotidiano em sua beleza mais simples. A forma como a autora abordou a maternidade vai ser meu novo parâmetro pra livros que prometem o mesmo tema. Gostei muito da leitura.

Me conta aqui se você já leu esse livro ou algo da autora. Essa foi minha experiência com ela e gostei muito. Já quero ler mais coisas dela. Espero que tenham gostado da resenha. Um beijo de brigadeiro pra cada um de vocês e até a próxima.



8 comentários:

  1. Oi Lary!
    Esta na minha lista de leitura, após a sua resenha minha vontade de lê-lo só aumentou!

    =D

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    Respostas
    1. Oi Thais
      Eu me apaixonei por ele. Recomendo que leia.

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  2. Estou quase começando a ler esse livro, já está em mãos e a vontade aumentou agora, obrigada pela resenha ótima!
    Com amor, espelho do Reino ♡

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Leia ele, Erika. É uma história muito boa.

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